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21/09/1991 - 10/12/1991 

FUNDAÇÃO BIENAL DE SÃO PAULO

01/09/2000 - 30/10/2000

CENTRO CULTURAL SÃO PAULO

Março de 2008

CENTRO CULTURAL HORACIO CERVANTES

COLIMA - MÉXICO

01/10/1999 - 20/10/2000

ESPAÇO FORA DO SÉRIO

14/03/2002 - 07/04/2002 

MUSEU DE ARTE DE RIBEIRÃO PRETO

14/11/2010 - 20/12/2010

MUSEU DE ARTE DE RIBEIRÃO PRETO

14/03/2012 - 07/04/2012 

FUNARTE - DF

Desde 2006 

UNIVERSIDADE DE RIBEIRÃO PRETO

 

21ª Bienal Internacional de São Paulo

21/09/1991 - 10/12/1991
 
FUNDAÇÃO BIENAL DE SÃO PAULO

 

Máscaras & Grafites

Vida e Máscara

Amilton Monteiro

Coordenador do Curso de Artes Cênicas do Centro Universitário Barão de Mauá,

Doutor em Teatro pela USP e Ator

Tenho a impressão de que a ideia de teatro - tomada em seu sentido mais essencial, histórica e metafisicamente -, é tão presente no espírito humano que mal nos damos conta disso.

Desde a Antiguidade, passando pela Idade Média, atravessando os séculos e padrões ocidentais de cultura, a ideia de um "teatro do mundo" todavia permanece (sem nos referirmos ao teatro oriental, cuja trajetória ainda hoje reveste-se de plena religiosidade,

talvez inacessível aos nossos olhos e corações).

Entretanto, no encontro dessas duas mentalidades, uma ideia comum, a de um Deus manipulador, fautor do enredo, dono de todas as personagens e seus caracteres, condutor da comédia

(ou tragédia) da vida de todos nós, títeres humanos.

Essa ideia ancestral, manifesta-se, ainda hoje, de modo quase "natural". Vivemos, afinal, na "sociedade do espetáculo", tomamos o símbolo pela própria coisa, e já há algum tempo sociólogos e psicólogos postulam "papéis" a que somos condenados a representar vida afora. Assim, o mundo é um grande teatro, e "todo mundo representa"

(como lembra a divisa do Globe Theater de Shakespeare).

Nossas "máscaras" nos disfarçam para (nos) revelar. E aqui enlaço a impressão confessada no início para lembrar aquelas duas máscaras, a que sorri e a que chora, a que exalta e a que geme.

A máscara é o próprio teatro e a própria vida.

A máscara tem um sentido mágico, antes mesmo de se transformar em elo de ligação

(ou de religação, religião).

O deus do teatro, Dioniso, nos é dado a conhecer através de três grandes origens míticas (epifanias), nas quais foi apresentado em efígie, em estátua ou em máscara.


O fato é, pois, transcendente: a divindade será inacessível, a não ser pelo artifício da

representação de um rosto que não é rosto, que será sempre máscara.

Mas, se nos colocarmos atrás dessa máscara, experimentamos a sensação da onipotência. Por alguns instantes, ocultos, podemos nos colocar no lugar da divindade. E olharmos o mundo com outros olhos. E esse instante faz-nos próximos à divindade, razão pela qual, ao retirarmos a máscara, já não podemos ser como antes...

Creio, firmemente, que essa dialética, de revelar ocultando e de esconder revelando pode ser alcançada e apreendida à vista de uma verdadeira máscara teatral.

Basta essa experiência, nada técnica, de simplesmente deixar o olho abandonar-se nesse mirar.

Já é hora de dizer que estas reflexões foram provocadas pelo artista Jair Correia. Em sua oficina, fui ver a coleção de máscaras que ele está criando para o acervo do

Curso de Artes Cênicas do Centro Universitário Barão de Mauá.

Conheço o trabalho desse artista singular, mas é sempre uma nova revelação o que se apresenta. Ele não se satisfaz com a mera reprodução das imagens de máscaras - desde as gregas até as da Commedia Dell’Arte, passando pelas romanas da comédia Atelana. Não. Ele quer imprimir a alma do que representam esses rostos. Disse rostos não por distração, pois aquelas máscaras de couro ou de papel, em sua aparente imobilidade transpiram vida. Tome uma em suas mãos: incline-a para um lado, depois para outro. Olhe-a de cima para baixo e vice versa. Depois, coloque-a em diferentes planos em relação à luz. Pronto! A mágica ocorre. Impressiona-nos a mobilidade potencial daquelas "imobilidades".Escrevo tentando descrever o indescritível. A máscara é uma experiência viva, sensível, profunda. A máscara "diz" a todos e a cada um.

Cada máscara é um universo.

Nem se fale em mascaradas carnavalescas por aqui, por favor! Falamos de um disfarce de outra natureza, de uma dialética, repito, que nos toca profundamente, que nos "historiciza", se quiserem, mas que, sobretudo, nos liberta a imaginação até os limites dos conhecimentos

essenciais - e que Platão nos perdoe!

As máscaras de Jair Correia são obras de arte por si. Mas, para nós, que vivemos teatro, são - além disso, instrumentos de natureza técnica. O ator vive da máscara, isto é, a personagem, e o teatro só se realiza integralmente através da presença viva do ator. A relação com a máscara, nesse sentido, lhe é indispensável, e se podemos falar de "técnica", a relação do ator com todas

essas máscaras é, além de enriquecedora, fundamental.

Essa é a razão pela qual o Curso de Artes Cênicas do Centro Universitário Barão de Mauá em boa hora entendeu a importância de um estudo inédito no Brasil, o de Improvisação com Máscaras (que já está sendo ministrado por Míriam Fontana).

Se há algo melhor que isso, só o fato de que as máscaras foram criadas por Jair Correia.

SETEMBRO DE 99
 

 

Máscaras & Grafites

01/10/1999 - 20/10/2000


ESPAÇO FORA DO SÉRIO - EDIFÍCIO DIEDERICHSEN

 

Máscaras

 

Máscara

Sebastião Milaré

Crítico e Estudioso Teatral

Disfarce. Dissimulação do Eu pelo Outro. Ao colocar máscara o indivíduo anula sua identidade assumindo outro caráter. Seja qual for seu objetivo, desencadeará a primeira necessidade humana de alteração da realidade objetiva. Re-liga o atual ao arcaico, refaz o percurso sagrado do homem, pois foi através da alteridade propiciada pela máscara que o homem

representou e estabeleceu contatos com as divindades.

A máscara é o caos. Surge no mundo indiferenciado onde divindade/homem/animal é unidade que se metamorfoseia, eliminando suas diferenças intrínsecas para que o eu seja também eliminado, prevalecendo o coletivo. E a máscara é seu instrumento. Ela fixa de modo concreto aspectos de uma realidade, tornando-o um arquétipo. Um paradigma. Por isso máscaras eram usadas indistintamente nas sociedades arcaicas, fosse na África, no Oriente, na Europa, nas Américas. É uma forma de expressão sobreposta à expressão pessoal do homem que a veste.

Ato de ordem mítica que gera a alteridade e o drama.

O drama! Rastreando a origem da máscara, termina o teatro se manifestando como força cósmica em meio a rituais populares de culto às divindades. A máscara explica sua natureza: o disfarce, a dissimulação do Eu pelo Outro. É o fingimento de ser deus, por parte dos homens, e de ser homem, por parte dos deuses. Não raro, recorrem aos animais para expressar paradigmas, arquétipos. Mas, esse movimento dialético do Eu e do Outro, vai se transformando com as sociedades. O ator contemporâneo mantém o sagrado estigma da máscara: não colocando estrutura de tela, gesso ou qualquer outro material, mas deixando seu rosto livre de expressões pessoais para que o Outro, o personagem, se manifeste. E com suas máscaras o ator vai fixando aspectos da realidade humana, tornando-os paradigmas ao homem contemporâneo em sua vida diária. Mesmo ao homem que não vai ao teatro. A máscara manifestada em um grande ator é forte e se transmite através de quem com ela se relacionou de modo energético, na condição de espectador.

O mesmo ocorre em outros rituais contemporâneos,

nos quais emergem máscaras, como os shows de rock.

Mas, se o próprio rosto como suporte de máscaras que emergem e desaparecem é o "modo" corriqueiro do teatro moderno, as máscaras confeccionadas em diferentes

tipos de materiais não foram banidas.

Já na Renascença surge a Commedia Dell´Arte que não apenas usa máscaras, mas cria uma galeria de tipos estilizados (entonações, tiques cristalizados, toda psicologia fixada), que eram virtualmente "máscaras". Um ator se especializava em um personagem e o fazia a vida inteira. Muitas vezes, herdara o personagem do pai, que também passou toda vida a fazê-lo, e o legava ao filho, que continuaria a tradição. Eram, portanto, atores de vasta experiência. Isso significa que o uso dramático da máscara exige grande preparação do ator. Se apenas envergar a máscara, pendurá-la no rosto, pode ser um folião, jamais um ator. Ao colocar a máscara, o ator experiente se transforma.

Seu corpo se transforma, seus gestos se transformam, até sua respiração se transforma.

Anula sua identidade para que o Outro se manifeste.

Isto é uma arte: não é uma vaga ideia, é um conhecimento.

Na verdade, o uso da máscara no teatro moderno foi parcimonioso. Porém, cada vez mais consciente do seu valor lúdico e mítico. Grandes artistas dedicaram-se ao estudo e à experimentação da máscara. O teatro contemporâneo é a soma de tudo isso e nele

a máscara readquire sua importância.

Porém, se do ator é exigida preparação e muita experiência para usá-la, também arte – além de habilidade artesanal – se exige de quem as cria e confecciona. Não basta saber usar o material, é preciso que tenha a sensibilidade da máscara. Naquela pequena estrutura feita para cobrir o rosto ou parte dele está concentrada a ideia poética de um tipo ou de uma entidade. Ali está o arquétipo que propiciará a criação do ator. Está o Outro. As máscaras criadas por Jair Correia pertencem à superior compreensão da máscara como expressão arquetípica. E pertencem a esse território porque não foram geradas apenas como pronunciamento estético, mas como instrumento da arte do ator. São objetos que só se justificam no palco, cobrindo o rosto do ator. Contudo, são também obras de arte, com sua autonomia indispensável: encantam o espectador, dizem-lhe coisas,

cria um estado inefável, são permanentes anúncios de ação dramática.

Certamente a excelência de Jair Correia enquanto artista plástico se estende às máscaras, porém o que lhe confere a sensibilidade da máscara é sua condição de homem de teatro. Tem a experiência viva do uso da máscara em uma década de trabalho com o Grupo Fora do SériO. Conhece suas intimidades e estabelece com ela um diálogo criativo. Estuda profundamente a história da máscara nas diferentes civilizações e isso consolida a familiaridade do artista com o objeto criado.

Nunca reduzindo o objeto a um ato puramente estético, preservando sempre sua função.

E é a função que torna a máscara um sacro objeto.

Ver o conjunto de máscaras de Jair Correia é um privilégio.

SETEMBRO DE 2000 
 

 

Máscaras

01/09/2000 - 30/10/2000
 
CENTRO CULTURAL SÃO PAULO

 

Jair Correia

 

Up to date

Radha Abramo

Crítica de Arte

Jair Correia trabalha em duas dimensões: apropria-se de suportes que já tem a marca de uma história e de suas funções já exercidas, como madeiras antigas, ferragens, lonas, sejam coberturas ou portas antigas e sobre esse pesado material, crivado de sinais e profundos significados, o artista processa o seu ritual de passagem como artista plástico. Pinta e desenha, transparecendo o gosto, o prazer do fazer artístico, da minúcia, do cuidado com o resgate do suporte que recebe outras imagens, recuperadas de outros tempos e de autoria de alguns mestres,

com os seus figurantes conhecidos.

Na atual fase de trabalho do artista surgem figuras similares as de Bosch, recriadas e outras figuras de homens, traçadas, segundo a imagem e semelhança de Deus, desenhadas, pintadas e pontuadas com marcas modelares para o aprendizado do tiro ao alvo.

Nos dois temas tratados, em séries e, acima mencionados, o artista estabelece a grande contradição, amplia o universo dos significados ao fazer a arqueologia da arte, retoma o passado que interfere no presente e vice-versa, construindo histórias aparentemente diferentes. Introduz novos significantes nos planos dos quadros a partir da feitura dos traços e massas de cor sobre as respectivas superfícies. Aqui, Jair Correia rejunta numa só matéria, com precisa habilidade técnica, as histórias e a sensibilidade do passado com o seu devir a ser. Claro que em tudo o que o artista toca ascende a crítica. Na primeira série de quadros, pautados em Hieronymus Bosch (1450-1516), Países Baixos, há cenas do imaginário popular que transpiram e remetem a Reforma contra a venda das indulgências da igreja romana. E, esta série de quadros, faz contra-ponto com a pintura dos modelos humanos, cujos corpos são pontuados com cores para treinamento de tiro-ao-alvo. Não há desculpa, e nem pagamento de indulgências que justifiquem definição de locais certeiros para treinamento de tiro e o abate de qualquer ser - seja humano, vegetal ou animal. Há uma relação estreita entre as duas séries de obras da atual fase de pintura do artista.

Uma remete a outra, complementam-se. Não há perdão.

As obras de Jair Correia me perguntam por que há áreas do nosso corpo

para treino de tiro ao alvo? Responda quem puder.

 

Jair Correia

14/03/2002 - 07/04/2002
 
MARP - MUSEU DE ARTE DE RIBEIRÃO PRETO

 

Encuentro Internacional de Commedia Dell'Arte

 

A abertura da Exposição deu-se com a fala das autoridades representantes das instituições apoiadoras do evento: Augusto Albanez (Diretor Geral do EICOM), Juan José Árias (Diretor de Artes e Humanidades da Secretaria de Cultura do Governo do Estado de Colima), Adriana Santana (Administradora do Centro Cultural Horacio Cervantes), o Regidor Del H. Ayuntamiento de Colima, e Jair Correia (Mascareiro e Expositor).  Na sequência, os mesmos expressaram o esforço e a alegria deste evento internacional, a proximidade do encontro das culturas mexicana, brasileira e italiana (em função da linguagem da Commedia Dell'Arte) e descerraram a fita para a abertura oficial da Exposição e consequentemente do Encuentro Internacional de Commedia Dell’Arte - EICOM.  A qualidade das máscaras de Jair Correia e o cuidado com que a exposição foi preparada causaram um impacto positivo entre o público presente.  Em particular, a forma encontrada para expor as máscaras, presas em um suporte que as fixa na parede, porém com uma certa distância que possibilita um destaque, ao lado de uma fotografia da máscara sendo utilizada por um ator durante um espetáculo, com um acréscimo de um pequeno texto explicativo e uma iluminação adequada formaram um conjunto de grande requinte.

 

Encuentro Internacional de Commedia Dell'Arte

Março de 2008

CENTRO CULTURAL HORACIO CERVANTES

COLIMA - MÉXICO

 

Ícones - Outras Palavras

 

MÁSCARAS DE JAIR CORREIA

Paulo Klein

Crítico e Curador Artes Visuais

*** Talvez por ser cidadão pacato (aqui, 3% de ironia), que se retirou há alguns anos da megacidade de São Paulo, para viver na próspera e interiorana Ribeirão Preto, Jair Correia permanece longe dos circuitos artísticos da moda, da ralação, da megalópole paulistana e dos círculos sociais das grandes cidades. Mas, volta e meia, ele retorna à Sampa, para rever os amigos e diversificar a sua, já ampla, bagagem cultural. Foi num destes retornos à nossa cidade natal (minha e do Jair), depois dele deleitar-se com Nelson Rodrigues e Bibi Ferreira, que marcamos encontro para colocar a conversa em dia. Encontramo-nos na Livraria da Vila, a original, na Vila Madalena e, entre longnecks, curtos e longos, estendemos a entrevista tarde à dentro, observando elegantes moçoilas com seus laptops e ipads, crianças adoráveis e garçonetes prestativas, que até retratos fizeram a gentileza de clickar! Portanto, este encontro histórico está devidamente registrado, e pode ser comprovado

em fotos digitais, com ou sem o uso de photoshop.

Agora, ao completar quatro décadas de atividades como artista - plástico, visual, contemporâneo, multimidiático - JC recebe homenagem à altura de sua trajetória nesta exposição que a Galeria Fayga Ostrower / Funarte apresenta como premiação do concurso ‘Arte Contemporânea 2012’.

 

Certo que, neste período, Jair Correia tem se dividido entre suas muitas paixões. Diretor de cinema, dramaturgo e cenógrafo, confessa que, quando solitário prefere as artes plásticas, quando opta por projetos coletivos, interativos, sua preferência é o cinema. Neste momento mesmo, nem bem terminou o ambicioso projeto cênico de montagem da IX Sinfonia de Beethoven, realiza esta exposição

‘Ícones – Outras Palavras’ e já trabalha no megaprojeto do 

filme de animação em 3D Metamorphosis, com perspectiva de ser preparado ao longo de

alguns anos e que tem tudo para ser dos grandes projetos cinematográficos de sua vida.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Rápido, intenso, Jair Correia não nega que é mestre em máscaras, domina a arte que herdou de Donato Sartori, mestre no assunto, com quem ele se iniciou na arte de criar máscaras³.

Para ele, as artes plásticas é a expressão ideal para se praticar na solidão do atelier. Já, o cinema, este é sua preferência quando o caso é trabalhar com equipe afinada, preparada.

 

Ao conversar com Jair – um pouco como repórter, outro tanto como biógrafo, tantinho como crítico de arte – a evidência das correspondências é imediata. Ele discorre, com clareza e fluidez,

sobre lugares, pessoas e experiências que confirmam estarmos frente à alma,

no mínimo, contemporânea.

Sinto-me honrado em partilhar deste seu momento, quando JC tira de seu atelier, em Ribeirão Preto, sete painéis que vem produzindo há algum tempo. Trata-se de um conjunto de painéis de certo porte (1,60 X 3 mts a 3 X 7 mts) onde a matéria é formada de recortes regulares de 94 portas portais e 60 janelas de demolições de casas antigas. “Utilizei-as da forma como vieram - explica - cortando-as e remontando as partes dentro de um espaço maior. Este 

suporte é montado em estrutura de madeira, dividida em partes para possibilitar a locomoção. Depois de pintada, ela passa por um routher 4 (ou roteador), que escava a madeira

mediante  desenho digital prévio”.

O resultado são peças compostas de blocos robustos de madeira, sobre as quais grava símbolos universais utilizados na indústria e nas convenções do cotidiano, que se materializam

em seu ato de gravar, imprimir, cavar, colorir.

 

São peças feitas em madeira de lei, antigas, que se amalgamam e se vergam ante a mão do artista. Qualquer interferência posterior, concebida sobre esse suporte, torna-se de alguma maneira fato interessante, poético até. Se trabalharmos ferro em brasa ou goivas, ou estiletes, ou formões,

ou máquinas de marcenaria há, em qualquer dos casos, possibilidade de resultados sedutores.

O conteúdo - em minha opinião, isso é relativo - importa como condutor dessa  robustez reconstituída na madeira, maleabilidade alcançada ao recortar e reorganizar,

gravar de forma indolor, com uma máquina.

Mas Jair Correia vai mais longe. Pretende deixar algo durável, imemorial, atemporal. Para isso seleciona símbolos/signos da indústria e do comércio cotidiano, com que somos bombardeados no dia a dia - marcas, logos, adesivos, códigos de barra - para perpetrar um verdadeiro Código do Consumo e do Cotidiano – à exemplo dos Códigos de Hamurabi ou dos Dez Mandamentos escritos pelo profeta Moisés. Resgata – querendo ou não – todas as formas de pensar e reproduzir códigos, formas, ideias, regras, mandamentos de época, talvez de tempos imemoriais.

O resultado em impacto, em tamanho e força, na completitude dessas grandes matrizes de xilogravura, é grande. Os signos, desde os sinais de não fumar ou não estacionar ao código de barras, com suas linhas fininhas ou grossas, dividem os espaços entre relevos, cores, outras grafias / outras palavras, algo entre o poema cantado e o imponderável.

Claro que conseguimos fazer certas ligações, comparações, interligações para tratarmos do trabalho de Jair Correia. Ele trabalha correntemente em campos diversos da expressão, mas com capacidade de interagir e interferir através deles. Cineasta e artista plástico - como Peter Greenway e Tim Burton - ele pode desde escrever um roteiro para filme ou adaptar um livro importante para o cinema, pelo simples fato de que essa será a melhor maneira de se expressar sobre este livro, até pintar um quadro ou pensar um site specific. Ulisses, de James Joyce, Galvez, o Imperador do Acre, de Marcio de Souza ou A Metamorfose, de Kafka podem inspirar uma adaptação, um estudo de viabilização,

um possível projeto futuro de quem 

conhece o Brasil e sabe que ele não é, nem foi, nem será o país do futuro.

Ou será que vivemos no país do futuro?

Voltando aos sete painéis de madeira de JC, com seus relevos e aplicação de folhas de ouro e de urucum, busco uma referência, uma correlação, talvez um artista que eu relacione a ele. Perguntado, ele me diz que não pensa, nem tem referência alguma, simples assim. Mas eu procuro, pois em meu íntimo sinto algo, alguma postura em sua forma de agir, de apresentar seu trabalho, que me remete a algum artista que eu já contemplei em minhas perambulações. E numa madrugada antes da entrega deste texto, fui até a biblioteca, fucei aqui e ali e descobri o que minha intuição apontava: Hundertwasser, ‘o pintor-rei das cinco peles’, segundo o pequeno

e belo volume escrito por Pierre Restany.

Jair Correia não tem nem perto o número das viagens deste vienense viajante, mas há algo nele, entre a imaginação e a operação, que me leva à Hundertwasser.

Com biografia rica em realizações e relações, Jair Correia fala de fatos em sua história que merecem ser destacados. Na década de 1980, quando já trabalhava em seus longas, que lhe deram algumas premiações como diretor de cinema, andava pelas ruas operando com o grupo Tupinãodá, mesmo sem ser membro efetivo do coletivo que reuniu, entre outros, Jaime Prades, José Carratú, Ciro Cozzolino, Rui Amaral, Carlos Delfino. O grupo foi responsável por  significativa virada na arte urbana, na arte de rua no Brasil. Isso me foi confirmado pelo Jaime Prades, outro artista que vem refletindo sobre questões da arte contemporânea. Na época do Tupinãodá acentuou-se a utilização de suportes e materiais inusitados, seguindo-se as experiências anteriores da Arte Povera, de Lucio Fontana e da Transvanguarda.

Outro aliado de Jair Correia, com quem ele dividiu experiências e com quem mantém amizade até hoje, é o diretor teatral Antunes Filho. No cinema, Jair Correia caiu nas graças, ainda jovem, do lendário crítico Rubem Biáfora. Anuncia por fim, como se não bastasse, que está indo para a Nova Zelândia visitar e trocar informações com o diretor Peter Jackson, do filme O Senhor dos Anéis, pois pretende desenvolver know how para realizar seu próximo filme.

Na realização das obras de ‘Ícones – Outras Palavras’, JC utilizou materiais com histórias próprias, com as penas do tempo, como madeira de demolição, cuidadosamente trabalhada para receber desenhos em baixo-relevo. Neste baixo-relevo são aplicadas desde folhas de ouro, prata e tinta de urucum, estabelecendo organicidade de tons e cores de forte presença visual. São obras de generoso tamanho e formato para suscitar certo impacto. ‘Outras Palavras’, segundo o artista, “exatamente esta nova forma de entender as coisas escritas de forma planetária, o hieróglifo moderno, usado no consumo, na circulação da população, na pulsação da dinâmica planetária”.

 

A conversa com Jair Correia foi tão fluída em nosso encontro na Livraria da Vila, que até a entrada da noite ainda estávamos ali, eu já pedia as primeiras longnecks, ele trocava-as por longos aditivados e minha filha Paloma, com quem eu havia marcado um jantar, chegou para participar da conversa. Foi ótimo, porque sugeri que Jair fizesse um resumo de nossas quase quatro horas de conversa, para que ela tomasse pé da mesma. Comecei pedindo que ele mostrasse a ela,

as fotos que fizera, naquele dia, de sua neta de poucos meses.

Depois ainda sairíamos da livraria para outro bar, por conta do horário, e eu ficaria ainda duas semanas maturando aquela prazerosa tarde de sexta-feira, as histórias anotadas ou não, as lembranças de seus trabalhos recebidos via arquivos, como blocos antigos de madeira e ouro,  como cápsulas de signos e de Tempo. ‘O Poder Da Arte’, ‘O Pintor-Rei das Cinco Peles.

Assim como Jair Correia, Hundertwasser, agora, não me sai da cabeça.

PAULO KLEIN

Crítico e curador Artes Visuais

ABCA – AICA 5

27/08/2012

1 - RESTANY Pierre – ‘O Poder Da Arte’ HUNDERTWASSER ‘O Pintor-Rei Das Cinco Peles’ – Taschen 2002.

2 - VELOSO Caetano – Fragmentos da letra de ‘Outras Palavras’.

3 - Com Donato Sartori, considerado o principal mascareiro vivo do mundo ocidental, aprendeu a metodologia da confecção de máscaras. Participou do Seminário Internacional de Máscaras, no Rio de Janeiro, em 1995, aprendendo técnicas de máscara em cartapesta. Aprendeu técnicas de máscara em couro no Seminario Laboratorio Internazionale, no Centro Maschere e Strutture Gestuali, em Pádova, na Itália, em 1996 e 1998. Pesquisou a história deste objeto e sua influência na trajetória da humanidade e suas complexidades para executar o vídeo-documentário Viagem ao mundo da máscara (1999). Em 2003, pelo seu trabalho no espetáculo Auto da Barca do Inferno, foi indicado ao Prêmio Shell de Teatro Brasileiro na categoria Figurino – Concepção Visual e Máscaras.

4 - Routher – Uma prancha recebe vários tipos de materiais para ter a superfície desenhada em baixo relevo. Recebe informação desenhada digitalmente e a ponta de uma broca recorta a madeira.

5 - ABCA – Associação Brasileira de Críticos de Arte / AICA – International Association of Art Critics

“É sobre a outra face da arte que se reagrupam os criadores inspirados em linguagens polivalentes que assumem a transversalidade das mensagens da arte contemporânea, e sua crescente integração na dinâmica existencial da vida cotidiana. Hunderwasser tem naturalmente aí o seu lugar, um lugar único, por vezes aparentemente paradoxal nas suas implicações imprevistas. Mas corresponde à lógica interna da sua visão humanista, feita de generosidade ingênua e de instinto prático. Este pintor apaixonado pela beleza passa a maior parte do seu tempo a trabalhar como médico da arquitetura, a recomendar vivamente a temperança ecológica e a odiar tanto a linha reta como odeia a União Européia”.   ¹

‘neca deste sono

de nunca jamais

nem never more

Travo, trava mãe e pai

Alma buena

dicha loca

 

Tinjo-me romântico

mas sou vadio

computador‘ ²

 

Ícones - Outras Palavras

14/11/2010 - 20/12/2010

MUSEU DE ARTE DE RIBEIRÃO PRETO

14/03/2012 - 07/04/2012 

GALERIA FAYGA OSTROWER - COMPLEXO CULTURAL DA FUNARTE - DF

PRÊMIO FUNARTE DE ARTE CONTEMPORÂNEA 2012

 

 

Exposição Permanente UNAERP

 

SOBE-DESCE E ABRE-FECHA

Dante Veloni

 

Apropriar-se de um objeto qualquer na vida comum, cotidiana, significa simplesmente um sujeito tomar posse para si de algo que não era de sua propriedade.

Apropriar-se de um objeto qualquer na vida comum, cotidiana, com o intuito de criar e produzir arte significa um artista tomar de assalto o corpo e a alma desse objeto, isto é, além dele incorporar o significado tradicional do objeto, o artista acrescenta a ele conteúdos poéticos que transformam esse mesmo objeto em obra de arte.

 

Há uma diferença na essência dessas duas atitudes de apropriação, onde a postura de um sujeito se distingue do outro pela qualidade de seu desejo exercido sobre o objeto.

A primeira postura faz com que um objeto apropriado continue sua existência já determinada desde sua origem até o fim do seu ciclo utilitário, onde somente seu proprietário foi alterado. Portanto, uma simples mudança no sentido subjetivo de posse, de propriedade.

Já a segunda, faz com que o objeto apropriado pelo artista passe a ter mais que uma simples mudança de propriedade. O artista interage com o objeto dando-lhe novas atribuições formais e conceituais. Dessa maneira ele o transforma num objeto estético que passa a ter um novo significado simbólico e uma nova função social, dotada do status de arte.

                               

E é o olhar atento e perspicaz do artista que aponta e atribui, num só gesto,

um novo significado a aquele obsoleto objeto.

Uma velha porta de elevador removida, deteriorada e em desuso, que chega ao fim de sua missão de abrir e fechar espaço transforma-se em matéria-prima para um artista atento e sintonizado com seu tempo e sua arte, exatamente como fez o artista Jair Correia neste conjunto de obras que chamou de Up To Date, que ora passa a fazer parte do acervo da Universidade de Ribeirão Preto.

 

Num primeiro e superficial olhar sobre a obra de Jair Correia, nos remontamos quase de imediato às idéias do dadaísta Marcel Duchamp, do começo do século 20, devido às suas citações históricas e seus objets trouvès. Porém, essa referência parece frágil,

anacrônica e distante.

 

Jair Correia já nasce sob outros signos, e, como artista, se forma num contexto influenciado pelo pós-guerra, a exemplo do Pop, do Neo-Dada e da Arte Povera das décadas de 50 e 60, com R. Rauschenberg, J. Johns ou M. Pistoletto, que, desprezando os suportes tradicionais da arte, se apropriavam de objetos industrializados, esdrúxulos e vulgares e os transformavam

em arte   (assemblages, intervenções e instalações).

 

Enquanto os dadaístas, durante a 1ª Grande Guerra e no apogeu do Modernismo, agiam de forma excludente negando o significado da arte de maneira a banir com toda referência artística do passado, os artistas do pós 2ª Grande Guerra abriram espaço à inclusão, isto é, acrescentaram novos significados àqueles inerentes aos de origem dos objetos apropriados, portando-lhes conteúdos imediatamente vivenciados e citações históricas de um passado próximo ou remoto, os quais geraram, a partir daí,

o uso do termo Pós-Moderno nas artes plásticas.

 

Muito embora Jair Correia seja descendente dessa segunda corrente artística, não seria o caso, e tampouco conveniente, tentarmos aqui enquadrar sua obra em alguma “categoria” , pois correríamos o risco de cometer o equivoco da exclusão e direcionarmos sua obra àquilo que exatamente ele não faz: impedir a riqueza da diversidade de leituras e a possibilidade de trânsito entre um código já conhecido, que é o objeto, a outro por se conhecer, que é sua arte.

Ele é um artista contemporâneo, e isso basta!

 

Às portas e aos elevadores carregados de inscrições, desenhos e talhos feitos pelos usuários de um antigo hotel de Ribeirão Preto durante seus 60 anos de funcionamento, que vão do glamour à decadência, Jair Correia acrescenta-lhes novos conteúdos poéticos, através de suas incisões e pinturas, que metaforizam o sobe-desce das pessoas com a diversidade cultural tão distinta de quem ali passou, abriu e fechou as portas. De quem, na clausura das quatro paredes do elevador, deixou cicatrizes de sua existência como ser universal.

Seja João, Pedro ou Antonio. Seja inglês, tibetano, egípcio ou chinês.

 

São dois elevadores, um chamado por ele de Expresso para o Céu

o outro Expresso para o Inferno.

Pelo Expresso para o Céu sobem aqueles que se julgam puros, castos, justos e dignos. Pelo Expresso para o Inferno descem aqueles que não se julgam pecadores, despudorados, profanos e envergonhados. Em suma, não há diferença alguma entre eles.

 

Desta maneira, assim como faziam Ezra Pound, Haroldo ou Augusto de Campos, num primeiro momento Jair Correia, como autor, traduz o objeto que lê. Num segundo momento, como ator, interpreta o objeto conforme sua consistente compilação intelectual.

Ao mesmo tempo em que se apropria ele responde e é imperativo: Make It New !

   

Em outras palavras: num instante Jair Correia é um garimpeiro, pois na lama descobre a lavra. Noutro instante ele é Midas, onde toca...

Maio de 2006

Exposição Permanente UNAERP

A PARTIR DE MAIO DE 2006

UNIVERSIDADE DE RIBEIRÃO PRETO